Em Ocara, a produção de castanha e caju reúne diferentes gerações, técnicas de cultivo e formas de aproveitamento do fruto.
Município ocupa a sexta posição nacional na produção de castanha e produtor aproveita parte do caju que seria descartado para fabricar cajuína
A cajucultura no Ceará atravessa gerações e também incorpora novas formas de produzir, aproveitar a matéria-prima e gerar renda no campo. Em Ocara, no Maciço de Baturité, a atividade ocupa espaço importante na agricultura familiar e coloca o município na sexta posição nacional na produção de castanha de caju.
No ano passado, foram quase 7 mil toneladas de castanha produzidas em Ocara, com R$ 26 milhões em vendas. A atividade movimenta a zona rural, gera empregos e também abre espaço para iniciativas de processamento do fruto
Em uma propriedade de 25 hectares localizada na comunidade de Novo Horizonte, o agricultor George Ribeiro mantém uma produção que combina a tradição dos antigos cajueiros com técnicas de manejo utilizadas atualmente. Um dos exemplares existentes no local tem mais de 50 anos e representa uma ligação da família com a atividade
George conta como a história da produção se relaciona com o cajueiro que permanece na propriedade.
- “Esse cajueiro aqui é uma propriedade da avó da minha esposa. E a gente lembra onde tudo começou, né? Onde tudo foi começado a cultivar, o cajueiro gigante, toda a tradição.”
A produção de caju na região passou por mudanças ao longo das décadas. Até a década de 1980, predominava o cultivo do chamado cajueiro “cerqueiro”, com uma safra por ano.
O agricultor Pascoal Ribeiro relembra as dificuldades enfrentadas naquele período.
- “Difícil, muito difícil pra fazer. Quando chegou na época era caro, né? Começou a tirar, eu achei ruim porque começou a tirar o do produtor, do pobre de cima da serra, né? Que tinha em cima da serra e dava a comida à família, né? A verdade era essa.”
Cajucultura no Ceará incorpora novas formas de manejo
Uma das mudanças apresentadas na produção foi a chegada do cajueiro anão. Diferentemente do modelo anterior citado na reportagem, o cultivo pode ocorrer em ciclo contínuo, com produção que pode se estender por até oito meses, dependendo do manejo utilizado.
Nos últimos três anos, George conseguiu fazer com que uma safra alcançasse a outra. O resultado está relacionado às práticas adotadas na propriedade.
O agricultor explica o trabalho realizado no cultivo:
- “Aqui a gente usou tratos diferenciados, desde a prática da poda no tempo correto, a correção do solo com nutrientes que estavam necessitando, a correção também com adubação foliar, proteção de pragas, o acompanhamento climático que a gente tem…”
A propriedade produz, em média, 10 toneladas de castanha e 23 toneladas de caju de mesa por ano. Grande parte da produção segue para mercados de Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
A combinação entre produção agrícola e processamento também passou a fazer parte da atividade desenvolvida no local.
Caju que seria perdido vira cajuína
Além da castanha e do caju destinados ao consumo de mesa, o agricultor encontrou uma forma de aproveitar parte do fruto que anteriormente era perdida durante a seleção.
Até o ano passado, eram perdidas 70 toneladas de caju nesse processo. A alternativa encontrada foi transformar esse volume em cajuína.
A pequena indústria instalada na propriedade produz 300 garrafas por semana e emprega 12 funcionários. O processamento criou uma nova etapa dentro da própria atividade rural, transformando parte do que seria descartado em outro produto.
O trabalho também passou a representar uma fonte adicional de renda para os trabalhadores envolvidos na produção.
George fala sobre a atividade e a relação com quem trabalha no local:
- “Gosto muito de estar aqui, mas hoje é hoje, né? E é um emprego que dá uma renda extra pra todos nós, dá um salário bom por mês, né?”
O aproveitamento não termina na fabricação da bebida. O resíduo que sobra da produção da cajuína é utilizado como ração para animais criados na região.
Dessa forma, diferentes etapas da produção são aproveitadas dentro da própria cadeia: o fruto pode ser destinado ao mercado de mesa, a castanha segue para processamento e comercialização, parte do caju que seria descartada é transformada em cajuína e o resíduo do processamento ainda encontra outra finalidade.
Produção de castanha gera renda no interior do Ceará
O desempenho de Ocara na produção de castanha coloca a atividade entre as principais fontes econômicas da agricultura familiar no município. A cultura também contribui para a geração de empregos na zona rural.
Na propriedade de George, o investimento chegou também ao maquinário. Foram aplicados R$ 50 mil em equipamentos para preparar a castanha para a venda.
A estrutura permite que a atividade reúna diferentes etapas e amplia as possibilidades de aproveitamento da produção dentro da propriedade.
Agricultor planeja ampliar o negócio
A experiência em Novo Horizonte também é um projeto voltado para o futuro. Depois de investir em manejo, equipamentos e aproveitamento da produção, George projeta ampliar o negócio e promover melhorias para os trabalhadores e para a região onde vive.
A perspectiva é continuar combinando agricultura e inovação como parte da estratégia para manter a atividade produtiva.
George resume a visão sobre os próximos passos do empreendimento:
“A gente tá aqui continuando e prosperando, lutando e vencendo, né? Com a agricultura e com as inovações.”

