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Agroecologia: alimentos sem agrotóxicos no Ceará saem de plantação direto para a mesa

A variedade da lavoura no Sítio Cotas, no Eusébio, permite que os consumidores recebam produtos diferentes ao longo do ciclo

No Sítio Cotas, alimentos são cultivados, colhidos e organizados em cestas que seguem diretamente para consumidores em Fortaleza

No Sítio Cotas, no Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, a produção de alimentos segue um caminho curto entre a terra e a mesa. Cultivados sem agrotóxicos, os produtos são colhidos, separados e organizados em cestas que, poucas horas depois, chegam aos consumidores na capital.

A atividade é conduzida pela família de Gilson Nogueira, agricultor que aprendeu a trabalhar com a terra plantando macaxeira ao lado do pai. A produção, que antes era concentrada em uma única cultura, mudou depois que ele enfrentou um problema de saúde e decidiu buscar outra forma de cultivar.

Como funciona a produção sem agrotóxicos no Eusébio

A área passou a incorporar diferentes cultivos e a família adotou a agroecologia como modelo de produção. Em um hectare e meio, são mais de cem variedades, entre tubérculos, hortaliças, frutas, verduras e ervas medicinais.

O trabalho inclui práticas voltadas à preparação e proteção do solo. Gilson produz o próprio composto utilizando capim de mambaça, folhas, esterco de gado e casca de ovo, além de fazer cobertura de solo.

“Conheci a agroecologia e gostei, me apaixonei, e aí eu comecei a trabalhar com isso, para ter diversidade. Eu faço cobertura de solo, faço o composto com capim de mambaça, com folha, com esterco de gado, com a casca do ovo, faço o processo todinho porque não pode botar o adubo totalmente vivo na terra.”

A variedade da lavoura também permite que os consumidores recebam produtos diferentes ao longo do ciclo. O que vai para as cestas depende do que está disponível naquele momento, respeitando o ritmo da produção.

Produção é planejada de acordo com a demanda

A quantidade produzida também é ajustada conforme a procura. Gilson participa de feiras em uma escola e também na Fiocruz, e considera esses períodos na organização da lavoura.

“Foco muito na demanda, né? Às vezes, como eu trabalho com feira na escola também e na Fiocruz também tem um recesso, eu sempre trabalho de acordo com a minha demanda. Quando chega o período das férias eu faço menos, porque sei que a venda é menor.”

Esse planejamento está ligado a uma das características da agroecologia destacadas pelo agricultor: respeitar o período em que cada alimento naturalmente está disponível. A produção acompanha o ciclo das frutas e dos demais cultivos, em vez de buscar manter todos os produtos disponíveis durante todo o ano.

“Dá o tempo que a terra dá. Você não vai querer colher maçã aqui no Eusébio, porque você não vai conseguir. Você tem que respeitar a estação das frutas. Você não vai querer comer manga no mês de março. Não tem condição de você produzir naturalmente. Tem outros processos que você consegue produzir, mas naturalmente na agroecologia você respeita cada estação das suas frutas.”

CSA aproxima agricultor e consumidor

A produção também já nasce com destino definido por meio de uma CSA, sigla utilizada para a comunidade formada em torno da sustentabilidade da agricultura. Os participantes contribuem mensalmente para a manutenção da atividade e recebem, durante o ciclo, parte da colheita.

Depois que os alimentos são retirados da lavoura, começa outra etapa. Os produtos são conferidos, separados e distribuídos nas cestas. A composição varia conforme aquilo que a terra oferece naquele período.

A filha de Gilson, Mariana Rodrigues, participa da entrega dos alimentos. “Os alimentos são produzidos aqui próximo e a gente fortalece essa cultura de comunidade.”

No Sítio Cotas, as cestas são organizadas para seguir diretamente para uma escola particular em Fortaleza que participa da comunidade. No local, os produtos são encaminhados aos participantes da cota, sem intermediários entre quem produz e quem consome.

Cestas saem do campo e chegam diretamente aos consumidores

Para Sérgio Takahashi, administrador da escola, a relação estabelecida pelo modelo vai além da compra dos alimentos. Os participantes se consideram parte do próprio ciclo de produção.

“É uma relação de fato de parceria com o agricultor. Até nós, que participamos desse ciclo de cestas, nós nos chamamos de co-agricultores, porque a gente ajuda nessa manutenção dessa relação de produção e consumo dos produtos orgânicos do Seu Gilson.”

A proximidade permite que o consumidor conheça a origem dos alimentos e acompanhe uma produção que acontece perto de onde eles serão consumidos. Para Marina Alencar, professora, essa relação também aparece nas características dos produtos recebidos.

“Percebo que os alimentos têm um sabor mais apurado do que a gente comumente vê pelos mercantis, nos mercados pela cidade, e existe todo esse respeito por essa ciclicidade dos produtos.”

O modelo encurta o percurso entre a lavoura e a mesa. No campo, a família de Gilson cultiva e colhe; depois, os alimentos são selecionados e colocados nas cestas. Na outra ponta, os consumidores recebem produtos cuja origem e forma de produção estão diretamente ligadas à comunidade que participa do ciclo.

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