WebRádio Ceará Rural Ao Vivo
WebRádio Ceará Rural Ao Vivo

APICULTURA

“Meliponicultura em alta: criação de abelhas nativas sem ferrão transforma a realidade econômica e ecológica na Serra de Mulungu.”

Nos meliponários instalados em Mulungu, caixas de madeira abrigam diferentes espécies de abelhas nativas.

Nos meliponários instalados em Mulungu, caixas de madeira abrigam diferentes espécies de abelhas nativas.

Diferente das abelhas africanizadas mais utilizadas na produção convencional, as abelhas sem ferrão possuem manejo específico e características próprias de produção. O mel produzido por essas espécies costuma apresentar sabor mais ácido, aroma intenso e variações diretamente ligadas à flora predominante da região.

Além das características sensoriais diferenciadas, a produção em pequena escala aumenta o valor agregado do produto e reforça a ligação da atividade com a preservação ambiental.

Meliponicultura ganha espaço na serra de Mulungu

Nos meliponários instalados em Mulungu, caixas de madeira abrigam diferentes espécies de abelhas nativas. É nesses espaços que acontece todo o ciclo de produção do mel artesanal.

O presidente da Associação de Meliponicultores, Idelfonso Luiz, explica que a atividade depende diretamente das condições climáticas e do período de floração da vegetação local.

“O meliponicultor cria as abelhas em caixas-modelo justamente para fazer a produção de mel acontecer. Mas a produção não acontece o ano todo. Em locais diferentes, como a serra, o mel é produzido na época do verão”, destacou

Segundo os produtores, o manejo exige observação constante do comportamento das colmeias e atenção ao equilíbrio ambiental ao redor dos meliponários.

Idelfonso também explicou como acontece o processamento natural do mel dentro das colmeias.

“A abelha tem glândulas e, nesse processo, ela já vai processando uma parte do mel. Em algumas ocasiões elas até se beijam umas com as outras, como se fizessem uma troca. Depois depositam o mel em pequenos potes de cera e, quando enchem, fazem o selamento”, afirmou.

Produção de mel depende da flora e do equilíbrio ambiental

A baixa escala produtiva é uma das principais características da meliponicultura.

Enquanto colmeias convencionais podem produzir grandes volumes de mel ao longo do ano, uma única colmeia de abelhas sem ferrão costuma gerar entre um e dois litros anuais.

No sítio São Roque, um dos meliponários da região, existem 45 colmeias, cada uma podendo abrigar cerca de 3 mil abelhas. Ao longo do ano, a produção ultrapassa pouco mais de 60 litros de mel

Segundo os produtores, o resultado reflete a forte dependência das abelhas em relação à vegetação nativa e aos ciclos naturais de floração.

O sócio meliponicultor Porfírio Neto destacou que as características do mel variam conforme as plantas visitadas pelas abelhas.

“Tudo depende da floração. A mesma abelha começa a coletar méis diferentes, com cores diferentes. Você tem um mel mais ácido, outro mais adocicado, mais frutado, alguns com gosto que lembra chocolate ou café. Tudo isso vem da floração das árvores e das plantas”, explicou.

Além do sabor diferenciado, o mel das abelhas nativas é associado por produtores e consumidores a propriedades nutricionais e medicinais valorizadas em mercados especializados.

Regulamentação fortalece criação de abelhas nativas no Ceará

O crescimento da meliponicultura no Ceará também vem sendo acompanhado por avanços na regulamentação da atividade.

Segundo dados apresentados pelos produtores, a criação de abelhas sem ferrão já está presente em 177 municípios cearenses. Entre 2017 e 2024, a produção de mel no estado passou de 1,77 milhão para mais de 6 milhões de quilos.

A regulamentação do licenciamento ambiental aparece como um dos passos mais importantes para fortalecer o setor.

A diretora da Associação de Meliponicultores, Tereza Farias, destacou que a legislação trouxe maior segurança jurídica para os criadores.

“Em 2022 foi criada a lei estadual que transformou a meliponicultura em atividade agropecuária. A partir daí, nós precisávamos de respaldo legal para transportar colmeias e fazer o manejo adequado”, afirmou.

Segundo ela, a atividade depende diretamente das normas ambientais e da atuação dos órgãos estaduais responsáveis pela fiscalização e preservação

Com a regulamentação, os produtores também passam a ter mais facilidade para acessar crédito, ampliar investimentos e expandir mercados consumidores.

Tradição familiar ajuda a manter atividade viva no interior

Além do aspecto econômico e ambiental, a meliponicultura mantém forte ligação com a tradição familiar no interior cearense.

Em muitos casos, o conhecimento sobre manejo das abelhas é transmitido entre gerações e desperta interesse desde a infância.

O produtor Carlos Savedra relatou que a convivência com os meliponários já desperta curiosidade na filha mais nova.

“A minha filha caçula, Manuela, tem só seis anos, mas já se interessa. Quando vou mexer nas colmeias, ela vai junto, pergunta tudo. Um dia ela encontrou uma abelhinha no chão e ficou segurando para ela não se perder”, contou.

Enquanto a atividade avança no Ceará, produtores destacam que o futuro da meliponicultura depende diretamente da preservação ambiental.

A conservação das matas, da diversidade de flora e dos ecossistemas naturais continua sendo essencial para garantir alimento às colmeias e manter viva a criação de abelhas sem ferrão no estado.

Compartilhe

Facebook
WhatsApp
Email