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TECNOLOGIA DO AGRO

Startup de Quixadá cria aplicativo para facilitar gestão de pequenos produtores rurais

O aplicativo foi idealizado para atender produtores que precisam acompanhar diferentes atividades da propriedade

O projeto foi desenvolvido dentro da Estação Tecnológica de Quixadá

A tecnologia está conquistando espaço no agronegócio do Sertão Central do Ceará com uma iniciativa desenvolvida em Quixadá. O Meu Curral Digital, aplicativo criado pelo jovem empreendedor Matheus Castelo Branco, pretende facilitar a administração de pequenas propriedades rurais, reunindo informações sobre animais, vacinação, produção, despesas e receitas em uma única plataforma. A ferramenta está em fase de testes com produtores de diferentes municípios cearenses e busca tornar mais simples o controle da atividade pecuária.

A proposta surgiu a partir da percepção de que muitos produtores ainda utilizam cadernos, planilhas ou até a própria memória para acompanhar os dados da fazenda. Com o aplicativo, a intenção é concentrar os registros em um ambiente digital, permitindo que o responsável pela propriedade tenha acesso mais organizado às informações do rebanho e da produção.

O projeto foi desenvolvido dentro da Estação Tecnológica de Quixadá, espaço que busca aproximar a formação de jovens das oportunidades de inovação e empreendedorismo. Matheus é formado como técnico em Negócios e estudante de Ciência da Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele encontrou no equipamento uma oportunidade para transformar conhecimentos adquiridos nos estudos em uma solução direcionada às necessidades do campo

A iniciativa também acompanha uma transformação no próprio perfil do agronegócio. Além de investimentos em máquinas e equipamentos, ferramentas digitais passam a integrar a rotina de propriedades rurais, contribuindo para o acompanhamento dos animais e para decisões relacionadas à produtividade e aos custos.

Meu Curral Digital reúne informações para facilitar a gestão rural

O aplicativo foi idealizado para atender produtores que precisam acompanhar diferentes atividades da propriedade, especialmente na criação de animais. A plataforma permite cadastrar o rebanho e reunir informações individuais dos bovinos, além de acompanhar registros sanitários e dados relacionados à produção.

Entre as funcionalidades estão o cadastramento dos animais por número do brinco, pelagem e nome, com possibilidade de adicionar fotografias. O sistema também contempla informações sobre atividades leiteiras e confinamento, além de indicadores que permitem visualizar dados do conjunto do rebanho.

“O produtor rural vai ter como cadastrar toda a parte leiteira, de confinamento, cadastrando o animal por brinco, pelagem, nome, até mesmo foto. E lá ele consegue ter todas as métricas de todo o rebanho”, explica Matheus Castelo Branco.

A organização dessas informações pode facilitar o acompanhamento da rotina da fazenda. Em vez de procurar registros em diferentes cadernos ou arquivos, o produtor passa a contar com uma ferramenta para consultar dados importantes da criação.

O aplicativo também reúne informações financeiras, como despesas e receitas. Esse acompanhamento é importante para que o responsável consiga observar os custos da atividade e avaliar os resultados da propriedade.

A proposta é fazer com que a tecnologia seja utilizada não apenas para guardar informações, mas também como instrumento de apoio ao planejamento. Ao visualizar os dados de maneira organizada, o produtor pode ter melhores condições de identificar despesas, acompanhar a evolução da produção e avaliar o desempenho do negócio.

Startup de Quixadá aposta em tecnologia voltada aos pequenos pecuaristas

A criação do Meu Curral Digital começou com a decisão de Matheus de desenvolver uma solução tecnológica direcionada ao agronegócio. Para colocar a ideia em prática, ele procurou a Estação Tecnológica de Quixadá, que abriu um edital para receber iniciativas empreendedoras.

O estudante apresentou o projeto e conseguiu espaço para desenvolver a proposta. Depois, chamou um amigo, que se tornou seu sócio, para trabalhar na construção da plataforma

“Eu decidi criar uma startup voltada para o agronegócio e tentar colocar aqui dentro. Quando abriu o edital, eu tentei. Aí comecei a chamar um amigo meu, que hoje é meu sócio, e a gente começou a desenvolver, ver o que era possível e quais eram as principais áreas que poderiam ser atendidas”, relata o empreendedor.

Um dos pontos que orientaram a criação da ferramenta foi a percepção de que soluções já disponíveis no mercado nem sempre atendem às necessidades de propriedades menores.

Segundo Matheus, existem aplicativos direcionados principalmente a grandes produtores, com estruturas de rebanho mais numerosas, além de plataformas que priorizam atividades agrícolas.

“A gente tem alguns outros aplicativos, só que são mais voltados para o grande produtor, de 500 a 1.000 animais, nessa média, e também para a parte de agricultura. O meu é mais voltado para a parte zootécnica. Então, a gente tem essa diferenciação”, afirma.

O foco na área zootécnica é uma das características que diferenciam a proposta. A intenção é oferecer recursos voltados ao controle dos animais e ao acompanhamento das atividades pecuárias, aproximando a tecnologia de produtores que precisam organizar a gestão sem necessariamente trabalhar com grandes estruturas.

Atualmente, o Meu Curral Digital ainda passa por testes com produtores de diferentes municípios do Ceará. Essa etapa permite avaliar a utilização da ferramenta na rotina das propriedades e acompanhar como as funcionalidades atendem às necessidades dos usuários.

Produtores rurais destacam importância da tecnologia na administração das fazendas

A digitalização da gestão é apenas uma das formas pelas quais a tecnologia vem sendo incorporada ao agronegócio. Em propriedades rurais, ela também aparece no melhoramento genético dos animais, no acompanhamento da produção e na análise dos custos de cada atividade.

O empresário e produtor rural Paulo Holanda destaca que o uso de ferramentas tecnológicas precisa estar associado à avaliação dos resultados financeiros da propriedade.

Na visão dele, não basta aumentar a produção ou investir em diferentes atividades sem acompanhar o retorno obtido. É necessário identificar quais segmentos geram lucro e quais podem comprometer o equilíbrio financeiro da fazenda

“Você tem que usar a tecnologia para fazer os cálculos do que dá lucro, do que não dá, e eliminar aquilo que está prejudicando a propriedade. Você ganha de um lado e perde de outro. Isso não compensa”, explica Paulo Holanda.

A avaliação chama atenção para uma questão importante da administração rural: a produtividade precisa caminhar junto com o controle financeiro.

Uma propriedade pode apresentar bons resultados em determinada atividade e, ao mesmo tempo, acumular despesas em outra. Sem registros organizados, identificar esse desequilíbrio pode se tornar mais difícil.

É nesse ponto que ferramentas como o Meu Curral Digital buscam contribuir. A reunião de informações sobre produção, rebanho e movimentação financeira pode ajudar o produtor a compreender melhor o funcionamento do negócio.

A tecnologia, portanto, não está restrita à aquisição de equipamentos sofisticados. Também pode estar presente em soluções digitais acessíveis, capazes de organizar informações e facilitar decisões cotidianas.

Estação Tecnológica de Quixadá incentiva empreendedorismo e formação de jovens

O desenvolvimento do Meu Curral Digital também destaca o papel da Estação Tecnológica na criação de oportunidades para jovens empreendedores no interior do Ceará

O espaço funciona em um prédio que integra a história de Quixadá. Segundo o coordenador da estação, Arthur Medeiros, a construção data de 1891 e está ligada ao período em que a atividade ferroviária e a produção de algodão tinham importância para o desenvolvimento econômico do município.

“A nossa estação é de 1891. Pelos nossos trilhos, o grande desenvolvimento de Quixadá foi o ouro branco, o algodão”, relembra Arthur.

Ele explica que, depois da perda de importância da produção algodoeira e do encerramento das atividades ferroviárias, o imóvel permaneceu abandonado por um longo período.

“O último trem passou em 1980. A estação ficou muito tempo abandonada. Quando a Prefeitura retomou o espaço, em parceria com o IFAM, transformou a estação em uma estação tecnológica”, relata.

A mudança de finalidade deu ao prédio uma nova função na cidade: receber iniciativas relacionadas à tecnologia, estimular projetos empreendedores e aproximar os jovens de oportunidades profissionais.

O trabalho envolve articulação com universidades, Prefeitura e instituições de apoio ao empreendedorismo. Entre as parcerias está o Sebrae, que mantém um laboratório de inovação no local.

O vice-prefeito e secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Tecnologia, Marcelo Costa Correia, destaca a importância dessa integração para oferecer formação e oportunidades de inserção no mercado de trabalho.

“A gente fez uma parceria com o Sebrae. Hoje nós temos aqui um Sebrae Lab, onde temos algumas startups recebendo esses jovens, querendo dar oportunidade, querendo formar esses jovens e jogá-los no mercado de trabalho, tanto para o Brasil quanto para o mundo”, afirma Marcelo.

A proposta é fazer com que o espaço funcione como um ambiente de desenvolvimento profissional, no qual estudantes possam conhecer o funcionamento de empreendimentos e participar da construção de novos projetos

Inovação busca fortalecer economia do Sertão Central

A Estação Tecnológica também trabalha para ampliar a participação dos jovens nas atividades de inovação e empreendedorismo. A perspectiva é criar condições para que pessoas formadas na região encontrem oportunidades de desenvolver projetos e negócios sem precisar deixar Quixadá.

Para Arthur Medeiros, a capacitação e o estímulo a novas iniciativas são fundamentais nesse processo.

“A estação está trabalhando exatamente para isso, para que possa trazer cada vez mais esses jovens para cá, que a gente possa capacitá-los e transformar Quixadá em um polo de inovação e tecnologia”, destaca o coordenador.

A experiência do Meu Curral Digital mostra uma das possibilidades dessa estratégia. Um estudante de Ciência da Computação identificou uma demanda do setor rural, buscou apoio em um ambiente de inovação e começou a desenvolver uma ferramenta para atender produtores do próprio Estado.

O projeto conecta áreas que tradicionalmente podem parecer distantes, como desenvolvimento de software e pecuária. Ao transformar informações da propriedade em registros digitais, o aplicativo busca facilitar uma atividade econômica importante para o interior cearense.

Com o sistema ainda em fase de testes, os próximos passos dependem da avaliação dos produtores e do aprimoramento da ferramenta. A iniciativa também evidencia como espaços de formação e inovação podem estimular soluções criadas a partir das necessidades locais.

Em Quixadá, a antiga estação ferroviária ganha uma nova função ao receber jovens interessados em tecnologia e empreendedorismo. E, a partir desse ambiente, projetos como o Meu Curral Digital mostram que a inovação no agronegócio também pode nascer no interior e chegar diretamente à rotina de quem trabalha no campo.

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