Parece a Califórnia ou o Mato Grosso ou Liz Eduardo Magalhães, mas essa foto é de áreas irrigadas no interior do Ceará.
Fruticultura e carcinicultura geram mais renda e emprego, porém milho, capim e sorgo rendem e alimentam o gado leiteiro
Recentemente abordamos uma questão crucial para o agro cearense: o bom e correto uso da água para a produção de hortifrutis, grãos e fibras, em regime de sequeiro (dependendo da chuva) ou pela via da irrigação por gotejamento, inundação, aspersão ou pivô central. O tema abriu um debate na comunidade da agropecuária do Ceará, fazendo surgir críticas a favor e contra o texto aqui divulgado, o qual revelou diferenças econômicas, financeiras, ambientais e tecnológicas, indicando vantagens a favor da produção irrigada de frutas e do consumo de água para o cultivo de camarões em relação à produção de milho, sorgo e capim. Em resumo, de acordo com os dados apresentados, o cultivo do milho, do sorgo e do capim consome mais água, gera menos valor e menos emprego em comparação com o que gera a fruticultura e a carcinicultura.
Imediatamente, pintaram-se para a guerra os produtores de milho, capim e sorgo da região da Chapada do Apodi, na geografia do município de Limoeiro do Norte. Eles ergueram seus tacapes verbais e, exibindo números e resultados, contrapuseram o seu argumento de forte conteúdo ao dos que produzem frutas e camarões com a mesma água taxada e outorgada pela Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh).
Os agropecuaristas limoeirenses do Apodi têm muito boas razões para batalhar pelo seu direito de seguir produzindo milho, capim e sorgo com água oriunda do açude Castanhão e fornecida a preço de mercado pela Cogerh. O que eles cultivam são produtos que garantem, nas épocas de estio, ou seja, por todo o segundo semestre do ano, a volumosa comida do rebanho bovino leiteiro que, por sua vez, assegura a proteína da alimentação infantil. Nas fazendas da Chapada do Apodi, os produtos cultivados, entre os quais a soja e a palma forrageira, são colhidos e guardados em silos, construídos de acordo com a melhor técnica disponível no mundo.
Um grande agropecuarista da região disse à coluna que “o cultivo do milho no Ceará é feito para ser vendido como semente e, também, como silagem, e esta é uma cultura importante tendo em vista que no nosso estado se produz pouco volumoso; e tem mais: esse cultivo só é feito quando os açudes estão cheios, proporcionando boas condições para a irrigação”.
A mesma fonte acrescentou, pausadamente:
“É preciso separar, no momento da outorga (do uso da água), o que é cultura permanente, de seis-sete anos, que tem de ter a garantia de água, e a cultura temporária. Veja o caso de algumas frutas que produzem somente em determinada época do ano; e no resto do ano, paralisam os equipamentos? Não, eles podem e devem ser usados na produção até de grãos. A equação é receita bruta e líquida por hectare, o resto é por conta de quem pensa e planta. É possível irrigar capim e ganhar mais dinheiro do que plantando banana, principalmente se você utilizar esse capim para fazer feno ou alfafa” (que são alimentos que se destinam, principalmente, aos rebanhos da pecuária bovina leiteira e de corte). É o que faz o maior produtor de leite da Chapado do Apodi, que não é Luiz Girão, fundador da Betânia, como todos poderiam imaginar.
Os argumentos acima são consistentes, e a Cogerh deve considerá-los no momento da outorga e do estabelecimento do preço a ser cobrado pela água fornecida. Fruticultores e carcinicultores, porém, na disputa pelo mesmo e essencial insumo, reivindicam o direito da primazia quando a oferta da água se reduzir por causa de eventos hostis da natureza. Baseado em que? – indagou a coluna. Na geração de emprego, responderam eles, explicando: na fruticultura, um hectare cultivado representa um emprego criado, e este é um dado relevante no semiárido e que deve constar da planilha de cálculos da Cogerh.
Devemos fincar os pés no chão da racionalidade.
Neste momento, estão o Ceará e os cearenses que produzem e trabalham no campo preocupados com a pouca reserva de água nos grandes açudes. Isto se agrava porque o Projeto São Francisco está sem bombear água para o Castanhão, e continuará assim por mais um ano, no mínimo, até que cheguem da China e se instalem as novas bombas na Estação Elevatória de Salgueiro (PE), de onde vem para cá a água do Velho Chico.
Quando essas bombas passarem a operar, a oferta de água do Canal Norte do Projeto São Francisco dobrará, e aí o Ceará disporá de água suficiente para atender às prioridades legais que, vale lembrar, são o abastecimento humano, a dessedentação animal e a atividade econômica, nesta ordem. Consequência: o milho, o capim e o sorgo serão permanentemente irrigados, assim como as frutas e os camarões. E cessará o debate.
O que colhemos de melhor na questão em tela é a boa disposição dos empresários que atuam na agricultura e na pecuária do Ceará, buscando, cada a um a seu modo, a melhor maneira de desenvolver sua atividade, que cresce e prospera graças a seus pesados investimentos na tecnologia e na inovação.
Lembremo-nos: há 30 anos, essa atividade agropecuária era paupérrima, quase nem existia, não tinha importância. Hoje, ela é capaz de promover uma feira e exposição multitudinária como a PecBrasil e, ainda, um calendário de exposições agropecuárias pelas várias regiões do estado. É o agro o setor da economia cearense que mais tem crescido e isto é produto do trabalho de todos.

