Baixo processamento da produção dentro dos municípios limita a criação de postos qualificados e a circulação de renda no interior
Depois de quatro meses seguidos de números negativos de empregos, a Agropecuária cearense acumulou dois meses consecutivos de saldo positivo, com junho e julho somando 705 empregos formais, das mais de 9.300 vagas geradas, no período. Os números parecem pequenos, mas um especialista apontou o potencial econômico do setor, especialmente no interior do Ceará.
Potencial, tecnologia e produtividade
O potencial da Agropecuária vai além das vagas diretamente ligadas ao cultivo, à criação de animais ou à produção de alimentos. A instalação de pequenas e médias agroindústrias pode potencializar a demanda por profissionais especializados, especialmente para ampliar os processos de beneficiamento. “O interior cearense ainda perde parte da riqueza porque muitos produtos deixam os municípios sem passar por esses processos. Com isso, etapas capazes de agregar valor e criar empregos acabam sendo realizadas em outras regiões”, disse o especialista em Desenvolvimento Regional, CEO da Sallto Empresarial e ex-secretário de Agricultura do Estado, Carlos Matos.
Ainda segundo Matos, a ampliação do emprego e da renda no campo passa pelo aumento da produtividade, mas o acesso à inovação ainda ocorre de forma desigual. “Tecnologias disponíveis no mercado permitem reduzir o tempo de criação do gado, elevar a produção de leite e ampliar a produtividade de cadeias como a carcinicultura e a fruticultura irrigada. Esses recursos, entretanto, permanecem distantes de muitos pequenos e médios produtores”, declarou.
Outro desafio
Apesar da positividade, que manteve o setor no campo positivo da geração de postos de trabalho, atrás apenas dos ramos dos serviços e construção civil, o ex-secretário destaca que as oportunidades fora dos grandes centros urbanos continuam dependentes de atividades informais e ocupações de baixa remuneração. “A informalidade ainda atinge a maioria dos trabalhadores em nove de cada dez municípios. Estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), em maio deste ano, revela que 91% dos municípios cearenses possuem mais da metade da população ocupada trabalhando na informalidade. Em aproximadamente 31% das cidades, a proporção ultrapassa 70%”.
Cidades como Salitre, Parambu, Aiuaba e Piquet Carneiro têm índices de informalidade de 88,2%, 80,1%, 79,8% e 78,9%, respectivamente, segundo dados do Censo Demográfico de 2022. “Os dados mostram que o problema se concentra, principalmente, no trabalho por conta própria sem CNPJ e nos empregos sem carteira assinada. A realidade evidencia a necessidade de recolocar o agronegócio no centro de uma estratégia de geração de emprego e renda no interior”, ressaltou o especialista.

