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Abelhas sem ferrão do gênero Melipona estão elevando até 20% a produção de morango e tomate em estufas Brasileiras

Abelhas sem ferrão aumentam de 12% a 20% a produção de morango e tomate em estufas brasileiras, melhorando qualidade e virando aliadas do agronegócio.

Pouca gente percebe, mas a agricultura intensiva do século XXI não se sustenta apenas com adubos, irrigação de precisão e estufas climatizadas. Nos bastidores de hortaliças e frutas produzidas sob plástico, madeira e aço, existe um grupo de operários invisíveis que decide a forma, o tamanho e até o sabor dos frutos. Estamos falando das abelhas sem ferrão do gênero Melipona, insetos nativos do Brasil que, nos últimos anos, começaram a migrar das matas para as estufas agrícolas com um único objetivo: polinizar melhor do que a mão humana.

No sul e sudeste do país, especialmente em regiões produtoras de morango (Fragaria × ananassa) e tomate (Solanum lycopersicum), pesquisadores vêm testando a introdução controlada dessas abelhas em sistemas protegidos, com resultados sólidos. Em experimentos conduzidos por instituições como Embrapa Clima Temperado, UFV e USP/ESALQ, observaram-se ganhos médios de 12% a 20% no rendimento produtivo e na frutificação, além de melhorias sensoriais e comerciais nos frutos. Algo simples, mas que muda tudo: uma abelha entrando na flor no momento certo faz diferença no bolso do produtor.

Por que o morango e o tomate precisam tanto de abelhas?

Embora não sejam culturas exóticas para o consumidor, morango e tomate possuem uma particularidade: o grau de formação do fruto depende da qualidade da polinização. No morango, por exemplo, cada pequeno “grão” presente no receptáculo floral é um aquênio, e a frutificação perfeita depende da fecundação do maior número possível deles. Quando isso não acontece, surgem frutos deformados, pequenos e mal aceitos pelo mercado.

Em estufas brasileiras avaliadas pela Embrapa, a polinização com Melipona reduz significativamente esse problema e ainda melhora o teor de sólidos solúveis (Brix) — um indicador de doçura e qualidade. Nos experimentos, produtores relataram que menos descartes e mais frutos comercializáveis significam mais receita, mesmo sem necessariamente aumentar a área plantada.

O tomate, por sua vez, apresenta flores que respondem bem à vibração, fenômeno chamado de polinização por buzz. Algumas espécies nativas conseguem vibrar o abdômen e facilitar o pegamento floral, algo que reduz abortamento e melhora o número de frutos por cacho. Em estudos da UFV, o uso de Meliponini elevou a frutificação entre 15% e 20%, um ganho expressivo considerando que estufas já operam com eficiência elevada.

Como as Melipona entram na  estufa e o que acontece lá dentro?

Ao contrário de abelhas exóticas utilizadas na Europa como o Bombus terrestris, as Melipona são nativas e sem ferrão, facilitando o manejo e reduzindo riscos em ambientes fechados. As colônias chegam ao produtor em caixas racionais, com populações controladas e rainhas ativas. Dentro da estufa, elas:

• visitam flores em ciclos curtos,
• utilizam rotas estáveis,
• evitam gasto energético excessivo,
• e trabalham em temperaturas onde outras espécies falham.

Pesquisadores destacam um ponto adicional: por serem nativas, elas não alteram o ecossistema local, evitando danos à fauna e à flora, algo relevante frente aos debates de introdução de espécies exóticas para polinização agrícola

Produtividade não é só quantidade é também qualidade e lucratividade

Enquanto parte da agricultura mede sucesso apenas em toneladas por hectare, a horticultura de valor acrescentado (como morango e tomate em estufa) funciona em outro modelo: o fruto precisa ser perfeito para ser vendido.

Os resultados observados nos últimos anos não dizem respeito apenas a mais frutos, mas a:

✔ frutos mais uniformes,
✔ melhor preenchimento,
✔ menos deformações,
✔ mais sólidos solúveis (Brix),
✔ menor descarte,
✔ mais frutos classe A.

Para o produtor, isso impacta diretamente a rentabilidade. Um lote com 80% a 90% de frutos classe A é muito mais lucrativo do que um lote com 50%, mesmo se a produção total for igual. Nesse sentido, as abelhas funcionam como um ajuste fino biológico, parecido com colocar um “software” dentro da flor que organiza o desenvolvimento.

A ciência brasileira tem papel central nesse avanço

A tendência das Melipona nas  estufas não surgiu como moda — veio da ciência. Grupos como:

• Embrapa Clima Temperado (RS)
• Embrapa Meio Ambiente (SP)
• USP/ESALQ (SP)
• UFV (MG)
• UFSC (SC)

têm estudado interação flor-insetocomportamento de forrageioajustes microclimáticos, e impacto econômico da polinização. Os resultados mais recentes reforçam algo que o agronegócio brasileiro já aprendeu com a ILPF, o manejo biológico e o controle integrado: biologia aplicada pode ser mais eficiente do que tecnologia cara.

Por que esse assunto importa para o agro do futuro

A FAO estima que 75% das culturas alimentares globais dependem, em algum nível, de polinizadores. No caso das hortaliças e frutas de alto valor, essa dependência é ainda maior.

Países líderes em horticultura protegida, como Holanda, Espanha e Israel, já usam polinização planejada há décadas. O Brasil está entrando nesse estágio agora, e o movimento se encaixa em uma lógica mais ampla:

• menos agroquímicos,
• mais precisão biológica,
• uso inteligente de biodiversidade nativa,
• aumento de produtividade sem ampliar área.

Em tempos de expansão populacional, restrições ambientais e custos crescentes, colocar uma colônia de Melipona para trabalhar pode ser mais disruptivo do que instalar um sensor novo.

A pergunta final não é se funciona — é quando escala

O uso de abelhas sem ferrão não é panaceia e não substitui genética, nutrição, clima ou manejo fitossanitário. Mas para produtores de estufa, onde cada metro quadrado conta, 12% a 20% de ganho real podem decidir a margem de lucro.

No fim das contas, a cena que resume essa revolução silenciosa é simples: milhares de abelhas nativas entrando e saindo de flores dentro de uma estufa branca, invisíveis aos consumidores, mas essenciais para que a mesa receba morangos mais doces e  tomates mais cheios.

A agricultura do futuro talvez não seja só digital ou química pode ser também biológica, com insetos brasileiros trabalhando lado a lado com tecnologia, em um equilíbrio que interessa à ciência, ao produtor e ao mercado.

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