Maior produtor de camarão do Brasil, o Estado planeja nova indústria de beneficiamento, com processamento e congelamento
A região do Vale do Jaguaribe receberá a primeira grande indústria de beneficiamento do setor de carcinicultura no Estado.
Principal produtor de camarão do País, com quase 60% da produção nacional, o Ceará pode potencializar os ganhos dos carcinicultores com esse investimento.
A ideia é agregar valor à comercialização, com as etapas industriais e sanitárias aplicadas ao crustáceo logo após a pesca, englobando limpeza, classificação, empacotamento e congelamento.
O projeto é conduzido pela Superintendência Regional da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) no município de São João do Jaguaribe (195,13 km de Fortaleza).
A informação foi confirmada com exclusividade ao O POVO pelo superintendente da Codevasf no Ceará, Odilon Silveira Aguiar. A licitação para a elaboração do projeto e para a construção da unidade fabril será realizada até o fim de julho.
Para viabilizar o planejamento, a Codevasf no Estado contará com o apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), além do aporte de emenda parlamentar, direcionados à construção do galpão e à aquisição de equipamentos operacionais.
Aguiar explica que, concluída a fase de obra, a gestão do equipamento industrial será concedida por meio de concorrência entre entes públicos, entidades associativas ou empresas privadas.
De acordo com o superintendente, o projeto executivo está em fase de conclusão após a contratação de uma empresa via convênio. Com a entrega do documento, o processo licitatório terá início.
O modelo de gestão da futura estrutura também será definido durante a licitação, etapa em que a entidade prevê abertura de diálogo com os segmentos produtivos da região.
A solicitação para a implantação da fábrica partiu dos próprios produtores de camarão locais e foi encaminhada à Codevasf pelo deputado federal Domingos Neto (PSD), com o objetivo de agregar valor à comercialização do produto no polo regional.
O investimento necessário para as obras não foi revelado por Aguiar, mas o gestor informou que os trâmites da licitação para a contratação da construtora responsável serão abertos de forma célere. Produtores da região estimam o aporte inicial em cerca de R$ 10 milhões.
Este é apontado como o principal projeto do período inicial de operações da Codevasf no Ceará, desde a inauguração da superintendência regional, em março deste ano.
Paralelamente, a entidade atua no setor de carcinicultura com a distribuição de 700 toneladas de ração para pequenos produtores, com as primeiras entregas efetuadas em municípios do Tabuleiro de Russas, como Limoeiro do Norte e Morada Nova.
Ao O POVO, o presidente da Associação dos Produtores de Camarão do Ceará (APCC), Luiz Paulo Sampaio Henriques, confirmou detalhes sobre a futura indústria de beneficiamento.
A ideia inicial é de que o setor público construa a estrutura e ofereça os equipamentos para que um ente privado ou associativo gerencie a operação, que, segundo o escopo apresentado, envolverá estrutura de processamento, congelamento e armazenagem.
“Isso é um projeto piloto para atender uma demanda gigante que o setor tem de indústrias de beneficiamento, para crescer com mais sustentabilidade, podendo congelar para estocar quando os preços estiverem baixos e viabilizar tempo de prateleira para buscar novos mercados”, apontou Luiz Paulo.
Na avaliação do CEO da Marchef, Ricardo Pedroza, que atua nessa área da industrialização do camarão junto a sete fazendas no Nordeste, entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, o avanço da agroindústria na carcinicultura ganha espaço no gosto nacional, gerando oportunidades aos produtores, mas “é preciso dar um passo além”.
Ceará lidera produção de camarão e impulsiona expansão no Nordeste
A marca liderada pelo empresário, por exemplo, conta com um catálogo de frutos do mar, com destaque para o crustáceo tratado, sem casca, cozido e congelado. Há até opções empanadas.
Porém, ele disse que ainda há desafios importantes referentes à regularidade do produto ao longo do ano. Há épocas com ampla oferta, reduzindo o valor dos itens. Mas quando há escassez “a alta é exorbitante”, o que inviabiliza a operação de restaurantes.
Por isso, Pedroza destacou que o segmento chegou a um dilema para viabilizar a continuidade do crescimento da atividade.
“O setor hoje não atende à demanda do mercado, essa é a realidade. Boa parte da produção é hoje vendida no momento errado e de forma errada”, afirma.
O executivo frisou que a empresa pretende integrar pequenos produtores legalizados para otimizar a comercialização de produtos congelados em todo o território nacional, de forma perene, durante todo o ano.
A comparação que ele fez é a da busca dos consumidores por opções práticas para o dia a dia, como a já popular oferta de frango cortado em bandejas.
“Ninguém mais compra frango vivo na feira para matar e tratar em casa”, disse, durante participação no Coalizão Agro 2026, realizado em Limoeiro do Norte pela Sallto Empresarial, pela Fundação de Cultura e Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Funcepe) e pela Instituição Educacional Cultural de Assistência Social Fátima Freire.
Carcinicultores no perímetro irrigado de Morada Nova
Davi de Castro Neto, presidente da Associação dos Carcinicultores do Perímetro Irrigado de Morada Nova (ACPIMN), apontou que os produtores cearenses chegam a produzir mais de 3,5 mil kg por hectare. Seriam mais de 1,5 hectare com tanques de camarão na região jaguaribana. Ele explicou que grande parte iniciou na atividade sem incentivo, com capital próprio, e enfrenta o desafio da pouca industrialização.
Davi celebrou que há esse projeto de construção de uma fábrica de beneficiamento de camarão que atenderia aos 400 produtores da região.
O objetivo envolve a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). Tudo demandaria um investimento de R$ 10 milhões e receberia recursos oriundos de verbas de emenda parlamentar.
“O camarão que produzimos vai mais de 80% para a Bahia, o Rio de Janeiro e o estado de Santa Catarina. Mas está vindo um beneficiamento para a região e o produtor em si está tentando se organizar para justamente enfrentar essa questão comercial, que não é fácil”, afirma.
Segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), o Brasil produziu o equivalente a 230 mil toneladas de camarões cultivados em 2025.
O número representa um avanço em relação à marca de 127 mil toneladas movimentadas em 2024. O Ceará lidera a produção nacional, com destaque para a interiorização da cultura, utilizando áreas do sertão com água salobra.
Para Ricardo Pedroza, essas quantidades devem ser multiplicadas nos próximos anos, ao ponto de o Brasil alcançar a marca de 500 mil toneladas de alcance anual nos próximos cinco anos.
O motor para essa expansão seria a combinação de dois fatores: a maior industrialização para o beneficiamento dos camarões aliada ao crescimento do consumo médio, que atualmente beira a 1 kg/pessoa, por ano. A meta é chegar a 2 kg/pessoa, por ano. O México, mercado usado como modelo pelos brasileiros, já consome 2,5 kg/pessoa-ano.
“Eu acredito que se a gente profissionalizar o negócio, vamos vender 500 mil toneladas aqui no Brasil, ou seja, a gente vai para 2 kg de consumo per capita. Tem espaço para crescer mais ainda, mas precisamos entregar regularidade de preço e fornecimento, que são dois pontos que o setor precisa resolver”, afirmou.
Ceará lidera carcinicultura e Nordeste puxa produção nacional
Segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), o Brasil produziu o equivalente a 230 mil toneladas de camarões cultivados em 2025.
O número representa um avanço em relação à marca de 127 mil toneladas movimentadas em 2024. O Ceará lidera a produção nacional, com destaque para a interiorização da cultura, utilizando áreas do sertão com água salobra.
Para Ricardo Pedroza, essas quantidades devem ser multiplicadas nos próximos anos, ao ponto de o Brasil alcançar a marca de 500 mil toneladas de alcance anual nos próximos cinco anos.
O motor para essa expansão seria a combinação de dois fatores: a maior industrialização para o beneficiamento dos camarões aliada ao crescimento do consumo médio, que atualmente beira a 1 kg/pessoa, por ano.
A meta é chegar a 2 kg/pessoa, por ano. O México, mercado usado como modelo pelos brasileiros, já consome 2,5 kg/pessoa-ano.
“Eu acredito que se a gente profissionalizar o negócio, vamos vender 500 mil toneladas aqui no Brasil, ou seja, a gente vai para 2 kg de consumo per capita. Tem espaço para crescer mais ainda, mas precisamos entregar regularidade de preço e fornecimento, que são dois pontos que o setor precisa resolver”, afirmou.
Aquicultura do Vale do Jaguaribe
Áreas ocupadas
Baixo Jaguaribe: 46,1%
Coreaú: 11,5%
Metropolitana: 11,4%
Litoral: 8,8%
Banabuiú: 5,9%
Médio Jaguaribe: 5,8%
Acaraú: 5,3%
Curu: 4,5%
Áreas ocupadas – por município
Jaguaruana: 2.631 hectares
Aracati: 2.591 hectares
Acaraú: 1.638 hectares
Beberibe: 1.115 hectaresh
Limoeiro do Norte: 920 hectares
Russas: 790 hectares
Camocim: 700 hectares
Evolução da área ocupada – Ceará
2023: 14.603 hectares
2024: 15.288 hectares
2025: 16.233 hectares
Fonte: Funceme

